Uma reportagem veiculada no site da Revista de História expõe o impasse sobre o futuro da Pharmácia Popular, o mais visitado prédio histórico de Bananal.
A permissão de visitas ao prédio, por sinal, diminuiu consideravelmente após a morte de Plinio Graça, em junho do ano passado. Isso porque seu único filho vivo e herdeiro, Carlos Roberto Reis Graça, resolveu encampar uma luta pela preservação real do prédio. Diferente do estilo cordato do pai, ele endureceu as conversações com órgãos públicos que, ao longo dos anos, nada de realmente prático fizeram em benefício da construção ou de seu acervo.
Plinio Graça aguentou calado os mais diversos tipos de promessas vazias, ao mesmo tempo em que sofria ao ver o prédio se deteriorar. Seu filho não pretende deixar essa estória se repetir e se dispõe até a vender o acervo para garantir a sua preservação.
Carlos Roberto Reis Graça, o Beto, será entrevistado brevemente pelo blog para esmiuçar ainda mais esta situação.
A reportagem de Felipe Sales, é a primeira a expor o panorama do momento e gera polêmica até na manchete: VENDE-SE UMA PHARMACIA.
Vende-se uma Pharmacia
Mais antiga do Brasil com rico acervo histórico, Pharmacia Popular está ameaçada de desabamento em meio a impasse entre o poder público e o proprietário, que tenta vende-la
Felipe Sáles
11/1/2012
O “PH” ainda mantido no nome é apenas um detalhe que remete a
verdadeiras raridades da farmacologia. Entre os mais de 4 mil itens do
acervo da Pharmacia Popular, a mais antiga do Brasil, estão desde
ânforas de cristal francês, relógios do século passado (ainda em
funcionamento!) e até rótulos pintados com pó de ouro. Preciosidades na
mira do forro de madeira do teto, que ameaça desabar em meio a um
impasse entre o poder público e o herdeiro do imóvel.
Inaugurada em 1830 no município de Bananal, no extremo leste de São
Paulo, a Pharmacia Popular funcionou plenamente até 2010. Grande parte
da conservação se deve ao zelo de Plínio Graça, que herdou o negócio do
seu pai, em 1956. Sem incentivo, fez muitas dívidas tentando preservar o
prédio – que em 1997, serviu até de locação para as gravações da
minissérie “Dona Flor e seus dois maridos”, da Rede Globo. A última
tentativa de manter o espaço foi transformá-lo em museu, há dois anos,
cobrando entrada de R$ 3.
A um jornal local, meses antes de morrer, Plínio contou que “o movimento na drogaria era fraco, porém eram constantes as visitas para conhecer o acervo histórico. Para manter as características originais, abrimos mão da modernização e isso influenciou o movimento”. Plínio disse ainda que encaminhara à prefeitura e ao governo estadual diversos pedidos de ajuda para conservar e manter o acervo, mas nunca foi atendido.
Missão assumida agora por seu filho, Roberto Graça, depois da morte de Plínio em junho do ano passado. Devido ao abalo nas estruturas de madeira que mantêm o forro do teto, Roberto decidiu fechar o museu e retomar os pedidos de ajuda junto ao poder público.
“Já procurei o Iphan, o Conselho Federal de Farmácia, o Conselho Estadual de Farmácia, e tantos outros órgãos. Recentemente, tive um encontro com o secretário estadual de Cultura de São Paulo, Andrea Matarazzo, mas não recebi nenhuma resposta”.
A um jornal local, meses antes de morrer, Plínio contou que “o movimento na drogaria era fraco, porém eram constantes as visitas para conhecer o acervo histórico. Para manter as características originais, abrimos mão da modernização e isso influenciou o movimento”. Plínio disse ainda que encaminhara à prefeitura e ao governo estadual diversos pedidos de ajuda para conservar e manter o acervo, mas nunca foi atendido.
Missão assumida agora por seu filho, Roberto Graça, depois da morte de Plínio em junho do ano passado. Devido ao abalo nas estruturas de madeira que mantêm o forro do teto, Roberto decidiu fechar o museu e retomar os pedidos de ajuda junto ao poder público.
“Já procurei o Iphan, o Conselho Federal de Farmácia, o Conselho Estadual de Farmácia, e tantos outros órgãos. Recentemente, tive um encontro com o secretário estadual de Cultura de São Paulo, Andrea Matarazzo, mas não recebi nenhuma resposta”.
Dono rejeita tombamento
A Secretaria Estadual de Cultura explicou que, por se tratar de um
imóvel particular, a recuperação e restauro são de responsabilidade de
seus proprietários. Porém, em alguns casos especiais – como obras
realizadas em São Luiz de Paraitinga –, “foram disponibilizadas verbas
para a reconstrução do núcleo tombado”. A secretaria encaminhou o
processo para a consultoria jurídica do órgão a fim de conseguir
autorização para restaurar.

“Se eu deixar tombarem o acervo, não vou poder tirar nada do local, nem
vender, nem fazer mais nada. Meu desejo é vender tudo, do jeito como
está – prédio e objetos – para alguém que tenha condições de cuidar. Já
me ofereceram muito, mas muito dinheiro por alguns itens avulsos. Mas
não quero fazer isso, pois meu pai dedicou sua vida a cuidar da
Pharmacia com muito carinho. Sou restaurador, e sei que isso iria
descaracterizar tudo. Mas ironicamente, e infelizmente, não tenho
condições de manter meu próprio acervo”.
Pharmacia também era o ‘senadinho’ da cidade
Na entrada do local, o visitante pisa em raros ladrilhos franceses até o
balcão em pinho-de-riga. A máquina registradora norte-americana ainda é
do século passado. Há, ainda, diversos aparelhos de manipulação,
balanças, móveis, armários e um busto de Hipócrates, pai da medicina.
Sem contar canecas de porcelana chinesa, usadas para medir líquidos, e
vidros com tinturas, óleos e pós que serviam para fabricar
artesanalmente os medicamentos. No século XIX, como não havia remédios
industrializados, os boticários eram responsáveis pela produção. Como
também não havia muitos médicos, eles acabavam sendo responsáveis por
analisar pacientes, fazer as receitas e, no laboratório – que funcionava
nos fundos da loja –, fabricar os medicamentos.
Ao notar essa carência na Bananal de 1830, o francês Tourin Domingos
Mosnier foi obrigado a mudar seus planos. Ele chegou à cidade e logo
comprou uma fazendo, disposto a se tornar um barão do café, mas acabou
voltando às origens de boticário. Assim nascia a Pharmacia Imperial, da
qual foi dono durante 30 anos.
Após sua morte, o coronel Valeriano José da Costa assumiu o negócio.
Nunca imaginaria que aquele balcão de atendimento movimentaria a cena
política da cidade: enquanto aguardavam a confecção dos medicamentos, os
fregueses discutiam os rumos da política local sentados nos bancos de
madeira próximos à porta de entrada. O espaço acabou sendo chamado de
“senadinho”, como é conhecido até hoje.
Acontece que, em 15 de novembro de 1889, o “senadinho” voltou-se contra
Valeriano. Nesse dia surgia a República Velha, e republicanos
bananalenses concluíram que a Pharmacia Imperial deveria mudar de nome –
por bem ou por mal. O popular, então, foi incorporado para anunciar aqueles velhos novos tempos.
Depois disso, o “senadinho” foi definitivamente incluído na história
política da cidade. Com a morte de Valeriano, em 1918, a Pharmacia
passou para as mãos do coronel Graça, que a doou ao seu filho mais
velho, Ernani Graça, recém-formado em ciências farmacêuticas. Ernani
tornou-se duas vezes prefeito da cidade, na década de 30, e as história
se repetiu: com sua morte, o filho Plínio Graça assumiu a Pharmacia e
também foi prefeito duas vezes. Agora está nas mãos de Roberto – e do
poder público, afinal – manter a herança não só de duas gerações da
família Graça, mas de um patrimônio brasileiro.